(fotos e texto: Nadine Escovar, correspondente internacional do Portal Alone)
Recomendo a China não por causa da modernidade deixada pelo Ninho de Pássaro e o Cubo D’Água depois dos Jogos Olímpicos de 2008, nem por toda aquela tradição milenar sempre tão estudada em livros e mostrada com beleza na TV. Mas porque mesmo alguém não tão fã da Ásia como eu, entende todos os paradoxos da China quando passa pela primeira vez pelos portões da Cidade Proibida. Caminhar pelas rampas antes só acessadas pelos imperadores é entender esse exuberante conjunto de construções que foi por quase 500 anos o centro cerimonial e político do governo chinês. Um palácio, apenas para a troca de roupa. Outro, para 10 minutos de reflexão. Um terceiro, de onde o imperador comandava as cerimônias, além, é claro, de outros conjuntos que serviam como residências, biblioteca, museu e salas para reuniões de governo, totalizando 980 edifícios sobreviventes.
E aí, não dá pra parar mais, mesmo que você queira. Saindo pelo Portão Tian’anmen, que dá acesso a praça de mesmo nome, conhecida como Praça da Paz Celestial, uma foto do revolucionário chinês Mao Tsé-Tung lembra a luta contra a repressão (ainda encontrada no país em sites como o YouTube e de relacionamento). Aqui aconteceu o protesto de 1989 contra o Partido Comunista, eternizado por uma foto onde um jovem estudante enfrenta sozinho uma fileira de tanques de guerra.
Mas, em Pequim, é claro, tudo se mistura. E a sensação de tristeza pelo massacre contrasta com a paz que vem dos templos da cidade. Um dia inteiro não é suficiente para os Templos dos Lamas e de Confúcio e o belíssimo Templo do Céu (todos cobram taxas de entrada que variam de 20 a 50 yuan - entre cinco e 15 reais). Compre seu incenso com os vendedores ambulantes e faça suas orações por paz, sabedoria, harmonia, longevidade, pureza e tudo aquilo quer os chineses conhecem tão bem desde pequenos.
De um templo para outro, não perca tempo: caminhe pelas Hutongs, ruelas formadas por courtyards residences (casas ao redor de um pátio). Explore a velha Pequim, confundida, é claro, com lojas e bares devidamente reformados para atender os turistas e, ao mesmo tempo, manter a tradição.
A melhor parte, deixamos para o final. Não, não estou falando da Grande Muralha, mas sim do Palácio de Verão. Um presente de aniversário de um imperador para a mãe que completava 60 anos. Em vez de visitar o local pelo caminho “normal”, como os divesos guias de excursões mostravam, optamos pelo lago artificial. O Kunming ocupa três quartos da área e, congelado pelo frio de dezembro nos permitiu uma vista completa dos 2,9 quilômetros quadrados compostos por maravilhas como a Ponte dos Dezessete Arcos e Colina da Longevidade, onde ergue-se o Pagode Vidrado Duobao.
Ainda, claro, sobrava energia para a Grande Muralha. E é preciso muita energia! Com temperaturas negativas e vento forte, turistas de todas a idades e lugares encontravam força na paisagem e no sol tímido que brilhava naquele dia. Eu perdi a conta de quantas vezes tive que parar para recuperar o fôlego enquanto escalava as rampas e centenas de degraus até a parte mais alta da Muralha na região de Badaling. Mas descansar admirando aquela vista não me incomodou nem um pouco. Construída com função defensiva, hoje a Muralha é um símbolo que representa a sabedoria e a força do povo chinês. Características que os levaram a segunda maior economia do mundo.
Por isso, vá para a China se puder, mas não estranhe se, além do vaso, você não achar papel higiênico no banheiro. Treine para comer com os chopsticks, porque alguns restaurantes mais tradicionais não tem nem garfo e faca. Sorriso largo estampado no rosto do garçom? Também não! Vá, sim, para a China, mas se prepare para ser surpreendido o tempo todo. Porque nada vai te preparar pra Pequim. Nem os livros de história, nem as imagens bonitas na TV. E muito menos essa matéria.
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