(texto: Milly Lacombe)
A primeira vez foi em São Paulo, e não foi assim tão boa. Do alto, a cidade já assustava. Mas foi apenas quando o avião tocou o solo e ela chegou às ruas que o assombro atingiu níveis alarmantes. Para quem nunca tinha saído de seu estado natal, o Paraná, o caos da megalópole que um dia ela chamaria de sua não fazia muito sentido. Prédios para todos os lados, trânsito, um oceano de gente pelas ruas. Isabeli Fontana tinha 13 anos e estava apenas começando a conquistar o mundo, que era até ali formado por Curitiba, onde nasceu, e Guaratuba, a praia paranaense que frequentava com a família. “Parecia que estava na gringa”, lembra-se ela a respeito da aventura inaugural. Para quem hoje viaja semanalmente, os primeiros 13 anos de vida estavam, no mínimo, fora da curva. “Não sei se me acostumaria com uma vida sem viagens”, responde quando pergunto se gosta desse ritmo. “Na verdade, fico assustada em pensar como vai ser quando isso mudar, quando eu não precisar viajar tanto… Vou ficar entediada? Realmente, não sei.” Pouco tempo depois da ida a São Paulo, foi a trabalho para Nice, na França, a primeira viagem internacional. E, por causa do sucesso que rapidamente conquistou na carreira, antes mesmo de conseguir pronunciar Dolce & Gabbana, estava viajando pelo mundo: Japão, Itália, Inglaterra, Estados Unidos. Tudo muito novo e muito depressa. Medo de avião nunca teve porque acha que quando a hora chegar, não haverá para onde correr. “Entro com um livro e pronta para pegar no sono”, diz a respeito das viagens mais longas que ainda tem que fazer.
Ainda adolescente, foi morar em Nova York, onde o trabalho era – e ainda é – abundante. Por lá ficou dez anos. Agora, residente da megalópole que um dia a assustou, diz que não quer voltar. “Tenho zero vontade de morar lá de novo. Gosto de ficar no Brasil”, conta enquanto negociava com a mãe a ida à estreia do Cirque du Soleil, que naquela noite se apresentaria em São Paulo com o espetáculo Varekai. Tentava convencer a mãe de que ainda era cedo para saírem de casa e me explicava que no dia seguinte teria que acordar cedo para fazer uma batelada de exames de rotina e, depois, ir à reunião de pais na escola do filho mais velho – a vida de uma das modelos mais renomadas do mundo pode ser tão banal quanto a sua ou a minha.
Ou nem tanto. Perguntei como ela conheceu seu namorado atual, Rohan Marley, filho do ícone do reggae, Bob Marley. “Numa viagem à Jamaica”, responde. E é assim, quase sem querer, que fiquei sabendo que a Jamaica é para ela como um segundo lar. “A água é linda, cristalina; lá é sempre quente, tem sol, tem praias espetaculares, faz calor... Em matéria de beleza natural, talvez seja o lugar mais bonito do mundo.” E enquanto se derretia pela Jamaica, contou que há anos tem por hábito passar lá seu aniversário, no dia 4 de julho. “Já levei minha mãe, meu irmão, minhas amigas...”
Mas a viagem de 2011 foi diferente. Semanas antes do embarque, uma amiga disse a ela que queria apresentar “um cara com quem você vai se dar muito bem”. “Quem é?”, quis saber Isabeli. “É um amigo meu, o Rohan. Vocês têm tudo a ver”. O único inconveniente, explicou a amiga, é que o rapaz morava em Los Angeles. A apresentação teria que ser feita à moda moderna. Ela então colocou os dois em contato via BBM – o serviço de mensagens gratuitas entre usuários de BlackBerry. “A gente começou a trocar uma ideia por BBM, e foi uma troca que fluiu. Aí, depois de uma semana, a gente quis se conhecer, e foi quando ele me apresentou ao Skype”, lembra-se Isabeli, rindo. Instruída pelo novo amigo, conseguiu se conectar e eles se enxergaram pela primeira vez. “Foi muito estranho. Nunca tinha visto a pessoa na vida e estava ali conversando com ele por Skype”, diverte-se.
Numa dessas conversas, ela contou que estava indo para a Jamaica com as amigas passar o aniversário. Rohan emendou: “Você só pode estar brincando? É a primeira vez que escuto alguém falar da Jamaica, minha terra natal!” Ela então explicou que ia há anos e, diante da empolgação dele, disparou: “Por que você não vai também?” Ele foi. E o namoro começou sob a bênção jamaicana. Lá, Isabeli contou a ele que seu filho mais velho se chama Zion porque quando ela soube da gravidez estava na Jamaica e acabaram escolhendo um nome que tivesse a ver com o lugar. Ele riu e disse que também tinha um filho chamado Zion. “Eram tantas as coincidências que nem a gente estava acreditando”, lembra-se. Depois de alguns dias juntos, namoro já engrenado, tiveram que se separar. E o relacionamento retomou à trilha cibernética.
Como ela adora viajar, a distância não chega a incomodar: sempre que pode ele vem, ela vai, ou se encontram no meio do caminho. “A gente quer estar perto o tempo todo”, diz. “Mas o trabalho e compromissos familiares acabam não permitindo.” Como Rohan é pai de sete filhos, é de se imaginar que existam inúmeros compromissos familiares. E quando tem filho em jogo, Isabeli é a primeira a estabelecer prioridades. Seus dois meninos, de dois casamentos diferentes (com o modelo Álvaro Jacomossi e com o ator Henri Castelli), Zion, 8 anos, e Lucas, 5 anos, a fazem desmarcar qualquer compromisso. “Ia amar ter uma menina também, claro, mas também adoro ser a única mulher no meio desses dois carinhas tão bacanas”, brinca Isabeli, ainda tratada como angel do time de upper models da Victoria’s Secret.
Em seguida, toma fôlego para falar de uma fase difícil da vida, quando, aos 19 anos, engravidou por acidente. “Eu morava em Nova York e estava em Milão a trabalho quando comecei a sentir muita dor nas costas”, diz. “Liguei para meu médico no Brasil e ele disse para ir a um ginecologista em Milão e ver o que era aquilo. No meio do exame, a ginecologista fala: ‘Ei, o que é isso?’ E eu: ‘Um diafragma’. Pô, achei que ela sabia o que era, né? [risos]. Mas o fato é que, ao mexer nele, ela o tirou do lugar e seis meses depois eu estava grávida”, acredita Isabeli. No auge da carreira, morando em Nova York e grávida. Claro que não demorou para que começassem a aconselhar que ela abortasse. Como o aborto é legal em Nova York, algumas das pessoas que cuidavam de sua carreira na agência acharam que essa era a solução. “Não considerei nem por um minuto, fiquei indignada”, diz ela. “Sempre tive sede de constituir uma família, de me casar, ficar na paz, nunca gostei da vida solta. Naquele momento, pensava apenas em comprar uma casa própria, casar com o pai do meu filho e viver feliz para o resto da vida. Mas as coisas não são simples como eu um dia imaginei”, conclui rindo e se referindo ao fim do casamento com Jacomossi.
Quando pergunto o que aconteceu, ela não titubeia: “Rotina, aquela hora em que bate o incômodo de você ver que a outra pessoa não é aquilo que você achava que era, e aí acaba o respeito, e com o respeito acaba todo o resto”. Depois disso, veio um segundo casamento, um segundo filho e um segundo divórcio. E o castelo encantado do amor eterno ruiu. Hoje, levando a vida com uma pegada mais “vai ser eterno enquanto durar”, depois de namorar o vocalista de O Rappa, Marcelo Falcão, por dois anos, está feliz em seu relacionamento intercontinental com Rohan. Para Isabeli, “tudo que é feito com amor vai dar certo. Pode demorar um pouco, mas vai dar certo, porque a vida sem amor não é nada”, crê a modelo. “Apesar de tudo, sou tranquila, simples. Não preciso de muito.” Mal sabe ela que, desde os 13 anos, quando deixou Curitiba na saudade, já conquistou muito.
Materias Relacionadas
Do charme de Glasgow ao monstro do Lago Ness
(texto: Nadine Escovar, correspondente internacionald do Portal Alone)Não é só na capital, Edimbu...
70% dos turistas que vão à SPFW são mulheres
O São Paulo Fashion Week (SPFW), maior evento do setor na América Latina que movimenta milhões em...
No vídeo: mais de 2500 anos de história
Palácios e templos com mais de 2.500 anos, além das paisagens incríveis de um país rico em hist...