Por Daniel Benevides
Papaulinha se ilumina. Vai sair com Saulinho. Tron – a versão original, de 1982 – era o filme. No escurinho do cinema, o esperado acontece: o primeiro beijo. “Lembro até hoje da sensação, do cheiro, do estranhamento daquele momento [faz uma careta e ri]. Achei esquisito, saí do cinema e ele queria segurar minha mão, mas disfarcei e fiquei na minha. Depois a gente namorou.” Antes do debute, ficava louca. O único menino com quem se encontrava passava seu tempo numa manjedoura iluminada ou pendurado numa cruz. “Traumatizante, né? Uma moça exuberante como eu estudando num colégio de freiras? Era o caos! Por causa disso, eu odiava a religião, queria quebrar tudo!”, brada.
Exuberante é a palavra. Ainda mais agora que Papaulinha cresceu e virou Maria Paula. Aos 40 anos, a atriz e apresentadora vive seu melhor momento – e não é força de expressão “Nunca me senti tão bem, não tenho nenhuma vontade de fazer plástica ou lipo”, revela. “Meu corpo é totalmente diferente do que era – tive dois filhos – mas me sinto mais atraente hoje do que aos 18. É algo interno. Se a autoestima tá resolvida, ela transparece”, ensina a atriz, célebre principalmente pelos papéis cômicos vividos entre os marmanjos desbocados do Casseta & Planeta.
Olhando para ela, ninguém duvida. O corpo desenvolveu as curvas hollywoodianas que se insinuavam nos tempos da MTV, nos anos 90, quando era VJ. O longo pescoço branco parece saído de um quadro de Modigliani ou de uma foto de Helmut Newton e curva-se ao sabor do equilíbrio com os grandes seios (que fazem muito varão suspirar). As longas pernas dão inveja a Lady Gaga e lembram Cyd Charisse, a bela dançarina dos anos 50. A cabeça é seu lado contemporâneo em todos os sentidos: nos pensamentos modernos e progressistas, mas também no cabelo curto, cuja franja assimétrica cobre parte dos olhos, e na boca sedutora – sua parte favorita.
Quando fala, a famosa voz rouca provoca uma curiosa contradição nos sentidos: é sexy, e ao mesmo tempo empolgada, voz de menina grande. Maria Paula é mesmo assim, alegre, confiante, positiva. E transmite isso para todos à sua volta. Quando pisou no estúdio do fotógrafo Marcio Scavone para as fotos desta edição, o frio de São Paulo se desfez por um momento. Tudo ficou mais claro. Pois ela descomplica a vida. Seu sorriso não é mera simpatia formal. É generoso, expansivo, vem de uma convicção funda de que é importante estar aberta para o mundo.
Separada de João Suplicy, com quem teve Maria Luisa, hoje com 7 anos, e o pequeno Felipe, de 2, ela parece pronta para aproveitar cada novo instante de solteira. Não que seu coração esteja totalmente livre – existe já “alguém”. Mas como ainda não é um relacionamento estável, ela prefere não entrar em detalhes. É uma postura que condiz com sua personalidade: feminista sem deixar de ser feminina, ela é uma mulher batalhadora e responsável, nada fútil. Separada também do Casseta & Planeta – mas não dos amigos, que continua encontrando – ela passou por um momento de pânico: “E agora, o que vou fazer?”. Então abriu uma sex shop. Conhecendo Maria Paula, poderia até ser verdade. Mas a sex shop de fato existe só no filme De Pernas pro Ar, em que ela divide os holofotes com Ingrid Guimarães.
Um sucesso que logo apagou o receio de ficar longe do porto seguro da tevê Globo. “Eu estava meio acomodada, mas também me sentia desgastada, física e mentalmente”, conta a ex-casseta. “Foram 17 anos entrando toda terça-feira na casa das pessoas! Por mais maravilhoso que tenha sido, isso mexe com nossa imagem. Essa pausa tá sendo ótima e o filme me ajudou muito. Mas quero continuar como atriz e principalmente voltar a ser apresentadora. Gosto de lidar com o outro, meu negócio é o ser humano.” Os três milhões e meio de espectadores do filme proporcionaram uma continuação, que começa a ser rodada em janeiro de 2012. “Já estou vendo roteiro e tendo reuniões com o pessoal”. Quando fala do papel, em que aparece num corpete sensual, exibindo toda sua voluptuosidade, se entusiasma: “A gente quebrou um tabu muito forte de que sex shop é coisa de gay ou prostituta. A gente fez um puta gol. O filme mostra um monte de dona de casa buscando prazer com todos aqueles brinquedinhos eróticos na maior naturalidade”.
A pergunta é inevitável: e você, Maria Paula, também vai a sex shop? “Fiz um laboratório intenso, fui a vários sex shops para ver como é na real. Antes eu ia só em viagens, tipo Amsterdã, como curiosidade antropológica, mas sempre usei vários brinquedinhos”, diz. “Tudo é superválido, inclusive com os parceiros. Isso é outra coisa legal do filme: mostra que os brinquedinhos não precisam ficar na gaveta. Quando você põe na roda, apresenta pro parceiro, aquele rabbit, calcinhas comestíveis, a coisa esquenta, fica apimentada. É divertido, engraçado.”
Corta. Voltamos agora para o final dos anos 90, na porta do Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro, o IARJ. Sete da manhã. Um sujeito de meia-idade entra e se dirige ao serviço gratuito de acupuntura. Entra numa salinha e dá de cara com Maria Paula. Cai o queixo. Ele pergunta: “É pegadinha do Faustão?” Olha em volta, procurando a câmera. Não há mais ninguém. Ele está a sós com um dos sex symbols da tevê brasileira, perturbado diante da lendária comissão de frente, mal contida pelo jaleco branco. Séria, objetiva, Maria Paula responde: “Não tem câmera nenhuma não, pode deitar, relaxar. Mostra a língua e o pulso, por favor”.
Quando se lembra desse tipo de situação, ri, sem sombra de gozação, mas deliciada com as surpresas que a vida apronta para todo mundo. Maria Paula tem muitas facetas e habilidades desconhecidas do grande público. Uma delas é essa. Formada em psicologia, depois de um período como assistente do psicanalista Jacó Pinheiro Goldberg, com quem chega a dar palestras, ela decidiu partir para a Índia, onde ficou dois meses estudando massagem ayurvédica. Ao voltar, continuou a aprender de fato o ofício – daí a passagem pelo IARJ.
“Sempre tive essa coisa com cura, e descobri que os resultados com o toque são muito mais rápidos do que com a palavra, tá tudo no corpo. O corpo traduz as emoções reprimidas.” Ela se especializou em acupressura. “É como o shiatsu. São os mesmos meridianos da acupuntura, só que em vez de agulha é a pressão do dedo”. De 1998 a 2004 teve uma clínica de terapia corporal, num espaço que alugava com duas amigas. Só parou quando nasceu Maria Luíza. “Aí eu me concentrei nela. Fiz muita massagem, lambia ela todinha antes do banho, que nem cria, que nem bicho mesmo. Pensava: a imagem do outro se forma para o bebê através do toque; então, quanto mais carinhoso o toque, mais suave vai ser essa relação; e se com a mão já é gostoso, com a língua, quentinho, molhado, vai ser show!”
Com o Felipe foi um pouco diferente. Rolou um Édipo ao contrário: “O Felipe eu lambia com o olho na Maria Luiza, mas o menino tem uma coisa de sedução, ele olha pra mim de um jeito que eu já suspiro, perco a linha, deixo tudo pra ficar com ele, sou apaixonadíssima! E não tenho medo de mimar não, acho que quanto mais amor, melhor. Se não tiver amor, vem a droga, a violência e a piração do mundo moderno”, filosofa. Esse tipo de reflexão acompanha Maria Paula há anos, nas colunas que escreve aos domingos no Correio Braziliense, maior jornal de Brasília, cidade onde nasceu em 1970. Mesmo ano em que a presidenta Dilma, a quem admira muito, era presa pela ditadura. Em seus textos, Maria Paula fala de como criar os filhos, de feminismo e feminilidade, mas também de como a sociedade está descontrolada, de como é possível melhorar o caos violento em que nos metemos.
Mais ainda que a continuação do filme, esse é o projeto que ela acalenta com carinho especial: montar um livro com suas melhores crônicas, devidamente atualizadas, para lançá-lo em setembro na Bienal do Rio. Há de tudo nos textos espontâneos, sinceros. Histórias afetivas do saudoso amigo Bussunda com a filha. Do avô médium, que previu o nascimento de sua mãe com uma pinta na perna. Novidades ecológicas, a vida pura dos índios e a natureza completa da boca. E até críticas contundentes ao consumismo desenfreado, ao estado de violência que matou Evandro João Silva, do Afroreggae, e a impunidade da violência doméstica.
Antenada com o Zeitgeist do mundo, Maria Paula, praticante fervorosa de ioga, se diz zen-budista e fala muito também da imagem das mulheres. “Me incomoda bastante essa exigência permanente de perfeição. Muita menina linda se olha no espelho e se acha feia, gorda. Nós não somos perfeitas e não queremos ser.” Mas também elogia o novo status sexual da mulher, de “pegadora”: “Sou supermoderna, tem um lado que é pé na porta, vamos chegar com tudo, a revolução sexual foi além do homem, hoje a mulher pode até pegar outra mulher que o homem não acha ruim; agora, o contrário não acontece”, diz. “A mulher pode tudo sem limites, azar dos homens [risos]. Nunca a gente esteve tanto com a faca e o queijo na mão. A mulher independente faz o que quer.”
Parece claro que ela se inclui nessa categoria. Mas apesar do tom “triunfante” não tem queixa dos homens. Pelo contrário: “Tenho uma sorte enorme com eles, graças a Deus [suspira]. Todos os meus ex- são incríveis, lindos, do bem, inteligentes”. Os ex- no caso são o apresentador Augusto Xavier, com quem se casou aos 18 anos, o diretor Rogério Gallo, que conheceu na MTV, e, entre outros namorados, o marido mais recente, João Suplicy, de quem continua bastante amiga. “Comigo não tem joguinho, não tem papinho, minha transparência está na testa, minhas relações são de completa confiança mútua.” Inteligente, bonita, alegre, calorosa, sincera. Sorte é algo que não vai faltar ao próximo homem da sua vida. E até dinheiro. Outro lado surpreendente de Maria Paula são seus empreendimentos imobiliários. Ela tem com a família um hotel em Ribeirão Preto (SP), “onde rola muito agroshow”, explica. E agora está investindo em hotéis na área de exploração do pré-sal. “Sim, quero garantir o leitinho das crianças, quero ter um carro bom, uma casa confortável, a melhor escola pros meus filhos, mas quero que todos tenham também essas coisas, essa tranquilidade, quero que a gente possa viver numa sociedade justa, sem grandes desigualdades.” Está dado o recado. Para quem já foi a serena e devota Papaulinha, um recado ousado, diga-se.