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BLOG DO ARMANDO

P.J. CLARKE´S EM SÃO PAULO
por Armando Coelho Borges

Começa bem o P.J Clarke´s de São Paulo. Se você ainda não foi, então vá. O horário, de domingo a quarta, é das 12h à 0h. De quinta a sábado, das 12h às 2h. Restaurante e bar não aceitam reservas nem cheques. Só dinheiro vivo e cartão de crédito. O serviço jovem se mexe com informalidade e é sempre cordial. Não faltam paralelos para fazer com a matriz de Nova York. À noite, a iluminação individual, nas próprias mesas, acrescenta um belo recurso para criar a atmosfera. É um achado suave que se incorpora ao conforto dos clientes.

Vale a pena conferir a história e outros detalhes que trouxeram esse ícone do East Side nova-iorquino, com mais de 100 anos de tradição, para pousar na cena paulistana da rua Dr. Mario Ferraz, 568. A decoração também incorpora luminárias e vitrais que tornaram célebre o ambiente do P.J. Clarke´s original. Até detalhes prosaicos foram reproduzidos. A jukebox estragada. Os antigos e célebres mictórios de porcelana. Nestes, dizia Frank Sinatra, podia esconder-se, de pé, o ex-prefeito de Nova York Abe Beame, e não seria visto por ninguém. Às damas que queiram apreciar a réplica remontada aqui, convém pedir permissão para a incursão turística interna.

O mérito dessa travessia NY/SP é todo da empresária Maria Rita Marracini. Ela investiu muito fundo na aventura de fazer o bar em São Paulo. Conseguiu o primeiro P.J. Clarke´s autorizado a funcionar fora dos Estados Unidos. Apostou na qualidade dos ingredientes e das mercadorias, oferecendo itens nem sempre encontrados aqui.

Sugestão: percorra o menu nas suas entrelinhas. Oysters Rockefeller saltam aos olhos. Gratinadas com espinafre, queijo, butter sauce e escaldadas com direito ao líquido. No P.J. são ostras criadas em Santa Catarina, chamadas ostras do Pacífico, ou japonesas (Crassotrea gigas). São provenientes de sementes do Chile, que se adaptaram muito bem às águas frias do litoral catarinense. Têm tamanho, textura e sabor ideal para o prato, que chega em alvo berço de sal grosso. No menu, três unidades saem por R$ 18,50. Mas pode-se pedir seis ou uma dúzia. Já ostras cruas são servidas de terça a domingo, seis unidades a R$ 19,30, 12 unidades a R$ 29,80.

Outro bom exemplo, Eggs Benedict (R$ 16,20). Dois ovos escalfados, bacon, English muffins (pão leve e macio, partido ao meio) e sauce hollandaise (manteiga derretida, gema de ovo, suco de limão ou vinagre, sal, pimenta, estragão e um pouco mais de creme fresco). São servidos apenas no brunch (domingos e feriados, das 12h às 16h). Mas mereciam figurar no cardápio em qualquer dia e hora. Uma observação. Os ovos pochés precisam ser comidos logo, sem deixar esfriar ou esperar no aparador.

Os Burgers (200 g) são deliciosos. Pedidos no ponto para malpassado, ficam úmidos e suculentos (R$ 19,90). Com queijo (R$ 3,90) e cogumelos de Paris (R$ 4,90), eles se destacam. Os americanos suspiram pelo Bloody Mary, servido em copo alto, com gelo. É o acompanhamento ideal para os hambúrgueres.

ENQUANTO ISSO EM NOVA YORK...
No P.J. Clarke´s de Nova York, na Terceira Avenida com Rua 55, mais do que a comida é a atmosfera que conta. Lógico que os hambúrgueres refletem a glória da casa. Mas há outros pitéus, dentre os quais o Chili con carne que só de lembrar me deixa de água na boca. (Maria Rita Marracini promete incorporar ao cardápio em breve). Mas, voltando ao cenário, lá, na Terceira Avenida, a lenda, como erva daninha, chega a ser até melhor que a realidade. Hoje, tribos dos negócios misturam-se a observadores de famosos. Gente do showbiz, da moda e do esporte intermeiam rostos que "despontam para o anonimato".

Em outros tempos as pessoas talvez fossem mais carismáticas. Será mesmo? Frank Sinatra na mesa vinte, ou na vinte três, distribuía gorjetas prodigamente. Seria um grande gesto? Nat King Cole elegia o melhor cheeseburger, o Cadillac (alface, tomate, queijo americano, bacon). Louis Armstrong ensaiava na sala dos fundos, na época em que os trens suspensos corriam sobre a Terceira Avenida. Dá para imaginar esse "minhocão" na Big Apple, estralando e estremecendo a rua? Aristóteles Onassis desfilava de Lee Radwzill a tiracolo, antes de casar com a irmã dela, Jacqueline Bouvier Kennedy. Johnny Mercer compôs "One for My Baby" no balcão do bar. Cena de "Farrapo Humano" (Lost Weekend, 1945), com Ray Milland, foi filmada "ao vivo" no P.J. por Billy Wilder, ainda que tivesse de ser (re)feita no estúdio.

Quando era dono do P.J. Clarke´s, Daniel Lovezzo Jr., que morou no Brasil em sua juventude, viu entrar no bar, certa noite, no fim dos anos 50, o gângster Frank Costello, o senador Hubert Humphrey e a atriz Marilyn Monroe, em mesas separadas, naturalmente. Que noite. "Quelque salade!", diria Lemmy Caution, personagem de Godard vivido por Eddie Constantine em "Alphaville". Que noite. A boca estava a mil.

Hoje, os proprietários do P.J. são o ator Timothy Hutton e o veterano restaurador Phil Scotti, do Sarabeth´s. A peteca está com eles. E a salada misturando pessoas continua saborosa.

P.S.: David Drew Zingg (1923-2000), fotógrafo americano, escolheu amar e morar no Brasil. Aqui fez de tudo (até tocar em conjunto de rock). Depois de muitos anos de ausência, esteve em Nova York, ficou na fila que se arrastava pela noite para entrar no P.J. Clarke´s. Foi quando ouviu um dos seguranças chamando seu nome. "Dave! Is that you? After all those fucking years!". Dizem que o diabo reconhece os seus até pela sombra. E o fotógrafo, sob aplausos da fila, fez a entrada triunfal no bar. Belo retorno, filho pródigo.

P.J. Clarke´s
www.pjclarkes.com.br
R. Dr. Mário Ferraz, 568, Itaim Bibi
11 3078-2965
De domingo a quarta, das 12h à 0h. De quinta a sábado, das 12h às 2h.


Armando Coelho Borges, gaúcho, está em São Paulo desde 1978. Em Porto Alegre fez coluna diária no caderno de Variedades do jornal Zero Hora, mesclando comidas e bebidas com música, cinema, esporte e atualidades. Em São Paulo, colaborou na revista CartaCapital, fazendo a secção "Secos e Molhados". E assinou reportagens sobre vinho na França, destacando o grande enólogo Emile Peynaud. Abordou o panorama do azeite em Portugal, participou da entrevista com a grande figura do vinho do século 20 na Itália, o jornalista Luigi Veronelli, um dos responsáveis do soerguimento da vitivinicultura italiana. Na revista Gula, discorreu sobre comidas na obra de Erico Verissimo e o vinho na Bíblia. Na editora Abril colaborou no Guia Quatro Rodas feito para a Telefônica, comentando 15 adegas de restaurantes no Brasil e 15 na cena internacional. Para Veja São Paulo fez crítica semanal assinada de restaurantes, e, na edição anual da revista, verbetes isolados e hipertextos da culinária servida na cidade. Entre eles, o que citava a ira do cineasta espanhol Luis Buñuel, jogando a paella sobre o tapete aos convidados brasileiros, que foram às compras, esquecendo da hora em que serviria o prato.

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