A noite do Oscar para o gim
por Armando Coelho Borges
Examine os favoritos, leia suas histórias, aprenda a pronunciar seus nomes, tudo está pronto para a festa da entrega do Oscar.
Não digam que não avisei: conversa de blog é como papo de botequim. Tipo: qual o melhor cantor, Frank Sinatra ou Nat King Cole? Pelé ou Maradona? Ava Gardner ou Sharon Stone? Eça de Queiroz ou Machado de Assis? Mangueira ou Portela? Sushi ou sashimi? É um inesgotável jogo de trívia, a se perder de vista, como diálogos de gangsteres em um filme de Tarantino.
Hoje vamos premiar o Oscar da turma do gim. Que anda até meio esquecida, a partir da rasteira que levou da vodka nos anos 60, quando ganhou o merchandising nos filmes de James Bond. Lembram-se? Bond pedia dry martini com vodka e gelo batido, chacoalhando. Foi um golo magistral, certo, mas, pra mim, gosto por gosto, dá gim de goleada. Mistura-se o gim com a colher, sem agitar, para não danificar as moléculas, como advertia W. Somerset Maugham, que não era cientista mas construtor de personagens de ficção. Em sua casa, em Cap Ferrat, na Riviera Francesa, os convidados, antes do jantar, eram recebidos com um dry martini. Maugham ficava puto dentro das calças quando pediam mais uma dose de dry martini. Era uma grosseria inominável ao anfitrião e à ordem em que as bebidas seriam servidas. Coisa de inglês.
Marcas indicadas
Nossa cerimônia começa. O álcool retificado e seu processo de destilação contínua trouxeram o gim para o mundo moderno. Os extratos vegetais aromáticos tiveram sua parte. O zimbro, com seu fruto redondo, aroma acentuado, cor azul forte e sabor, ao mesmo tempo, doce, ácido e amargo (!), encarnou a identidade e o desafio da bebida. Com o tempo, mais frutos, cascas, ervas, raízes são adicionadas às formulações, guardadas sob segredo e a sete chaves.
Os indicados para o prêmio de hoje à noite são: Beefeater, Bombay Sapphire, Gordon´s, Plymouth, e Tanqueray. Um time de respeito, em ordem alfabética. Pelo teor alcoólico vamos do menos ao mais. E o gosto... aí não se discute.
Plymouth (em São Paulo, pode ser encontrado no Emporium Dinis, tel. 11 5189-4949, Shopping Morumbi, importado pela Interfood): com 41,2 de gradação alcoólica, é o mais suave dos gins, parecendo até um pouco doce. Destilado no porto histórico de Plymouth, recebendo o álcool de cevada da destilaria de Black Friars, também de Plymouth. Leva cardamomo, planta da família das gengibráceas, que a cozinha indiana usa bastante como condimento. Plymouth não é tipo "London Dry Gin", expressão para definir os gins mais secos concebidos por Charles Tanqueray no século 19. Plymouth possui identidade toda sua. Os demais indicados no Oscar são gins London Dry.
A seguir vem Gordon´s London Dry Gin, com 43 de gradação alcoólica. É suave, dependendo do mercado a que se destina. No Brasil e nos free-shops aparece com 43; nos Estados Unidos, 40; na garrafa verde que circula na Inglaterra, tem 47,3 de gradação alcoólica. A Rainha-Mãe (que tomava todas) e a filha Elizabeth II, cada uma, conferiram-lhe chancela de aprovação real. Parece que merecida. Gordon´s é marca facilmente encontrável no mundo e no nosso país.
Depois, favorito sentimental, senão do público, meu. Beefeater (da Pernod Ricard, SAC 0800-0142011), com 47 de gradação alcoólica. Perfume excelente, raiz de lírio para ligar os itens botânicos da fórmula, como angélica (em sementes), angélica (no caule aromático), sementes de coentro (não as folhas). O seu "flavor" é pungente, notam os especialistas (eu não concordo), e o gosto do zimbro, pronunciado. Alguns conhecedores acham que Beefeater é "ginoso" demais para fazer um bom dry martini - seja lá o que isso quer dizer. Mas, nessas experiências, tendo bastante tempo, é bom testar, com a necessária moderação, as outras marcas. Isso também vale para Gin Tônica e qualquer outro tipo de coquetel. Tem mais de um semestre para um golezinho aqui e outro acolá. Sem comprometer a moderação. Calma, que o Brasil é grande.
A grande última novidade no mundo do gim foi lançada no mercado em 1988. O Bombay era originário da Índia, mas, com a entrada do gênio de marketing Michel Roux, da importadora Carrilon, passou-se a fazer o novo gim Bombay Sapphire (Bacardi-Martini do Brasil, tel. 11 4367-4761, rua Martini, 298, São Bernardo do Campo, SP; e Liquor Store, tel. 11 3507-6222, rua Almadém, 19, Morumbi, São Paulo), com 47 de gradação alcoólica. Entram na fórmula dez vegetais. Nenhum outro gim tem tantos. Quase todos são importados, como o alcaçuz, que vem da China. O aroma é mais refinado e menos intenso que o do Beefeater. Os grãos de zimbro da Toscana trazem aromas de lavanda e cânfora. Dizem os especialistas. O dry martini com vermute francês Noilly Prat que se obtém com o Bombay é de tirar mesmo o chapéu (se ainda há quem o use). Assino embaixo.
Por último, mas não em último, o Tanqueray 10 (em São Paulo, encontrado no Emporium Dinis, tel. 11 5189-4949, Shopping Morumbi, importado pela Diageo, SAC 0800-7047200), com 47,3 de gradação alcoólica. Tem final seco, claramente pronunciado, mais sutil, talvez, que os outros gins. Beneficia-se, também, de uma destilação tripla, que acrescenta um degrau a mais na destilação, assegurando a maciez e a delicadeza do "flavor" - permitindo que a mistura concentrada, ao ser destilada pela terceira vez, impregne mais o produto final. Essa, pelo menos, é a ideia.
Prêmio especial do júri: desenhos e figurinos
A gravura célebre de William Hogarth, o Beco do Gim ("Gin Lane", de 1751), mostrando o horror exacerbado de homens, mulheres e das sofridas crianças, pertencentes às working classes, chamadas de "drinking classes", ligando a bebida zurrapa da época com a imagem negativa, que permanece até hoje na Inglaterra, sobre o gim. São expressões pejorativas, como "gin-soaked" para os bêbados ou "ruína das mães", como é chamado pelos ingleses.
Receitas de coquetéis com gim
>> Dry martini de Luis Buñuel
2 doses e ½ de gim (Bombay ou Tanqueray)
½ dose de vermute francês Noilly Pratt
1 colher de chá de Angostura (bitter)
Despeje os ingredientes na coqueteleira ou em recipiente de vidro, mexa suavemente e, depois, derrame sobre cubos de gelo, que estão em outro recipiente, mexendo sempre o líquido e as pedras, em movimentos leves, no sentido horário, por 30 segundos, para gelar. Escorra o líquido gelado ao recipiente anterior, sem deixar passar as pedras. Jogue o gelo fora. Sirva em copo especial de dry martini com uma azeitona. O cineasta Buñuel, que era um gozador, mostra o ritual dos ricaços em O Discreto Charme da Burguesia, sobre o dry martini. Touché.
>> Dirty Martini (Martini sujo)
Franklin Delano Roosevelt gostava de martinis e ele mesmo os preparava aos convidados, na Casa Branca e nas viagens, onde servia Churchill e Stalin em momentos de descontração. O Dirty Martini era um dos favoritos de FDR.
2 doses de gim
1 colher de sobremesa de vermute seco
3 colheres do caldo para preservar azeitonas
O martini sujo é uma surpresa, porque acentua o gosto do gim, e o caldo (brine, em inglês) das azeitonas surpreende porque palatável.
>> Gimlet
2 doses de gim
½ dose de suco de limão siciliano
Limão siciliano, amarelo, e não o taiti, que é verde. Esta pode ser uma receita-base de Gimlet. Há outras variações. Improvise.
O sumo de limão siciliano também é marca de fantasia da Schweppes inglesa com o nome Rose´s para o xarope obtido. N´O Longo Adeus, de 1953, de Raymond Chandler, o personagem Terry Lennox explica que "o verdadeiro gimlet é metade gim e metade Rose´s Lime Juice Cordial". O gimlet, na novela, age como um santo graal da amizade entre o detetive Marlowe e o personagem Terry Lennox. Judith Freeman escreveu The Long Embrace com o sub-titulo "Raymond Chandler e as mulheres que amou". Quando Terry Lennox desaparece, no livro policial, há espaço para mais traição? Marlowe encontra Linda no bar. O clima da traição reaparece. Linda está tomando Gimlet. Marlowe também. Ele acha que, num país tão consciente da sexualidade, os dois poderiam (que diabo!) conversar sem necessidade de arrastar o quarto para a sala. Ela vai para o reservado de Marlowe, no bar do hotel, em que ele colocou os drinques ordenados ao barman. Mas a ambivalência ficou muito clara nesta e noutras passagens do livro. Judith Freeman informa, depois, que, na vida real, na sua Casa de la Costa, na Califórnia, ele bebia todas as noites enquanto revisava as provas de O Longo Adeus. Certamente, a bebida era Gimlet. Judith acha que, através do graal (leia-se o coquetel), ele se conectava com as duas metades masculina e feminina da sua psique criadora - e talvez, possivelmente por aí, fluíssem seus desejos eróticos. Há tanto material que fornecem n´O Longo Adeus com sexualidade mais explícita que chega a ser um divisor na obra de Raymond Chandler, este grande escritor da literatura policial norte-americana.
Quem quiser pesquisar na Amazon, anote:
The Long Embrace, de Judith Freeman, Pantheon Books, 2007, 1ª edição, 255 páginas, capa-dura, US$ 25,95. A noite do Oscar para o Gim chega ao fim.
Armando Coelho Borges, gaúcho, está em São Paulo desde 1978. Em Porto Alegre fez coluna diária no caderno de Variedades do jornal Zero Hora, mesclando comidas e bebidas com música, cinema, esporte e atualidades. Em São Paulo, colaborou na revista CartaCapital, fazendo a secção "Secos e Molhados". E assinou reportagens sobre vinho na França, destacando o grande enólogo Emile Peynaud. Abordou o panorama do azeite em Portugal, participou da entrevista com a grande figura do vinho do século 20 na Itália, o jornalista Luigi Veronelli, um dos responsáveis do soerguimento da vitivinicultura italiana. Na revista Gula, discorreu sobre comidas na obra de Erico Verissimo e o vinho na Bíblia. Na editora Abril colaborou no Guia Quatro Rodas feito para a Telefônica, comentando 15 adegas de restaurantes no Brasil e 15 na cena internacional. Para Veja São Paulo fez crítica semanal assinada de restaurantes, e, na edição anual da revista, verbetes isolados e hipertextos da culinária servida na cidade. Entre eles, o que citava a ira do cineasta espanhol Luis Buñuel, jogando a paella sobre o tapete aos convidados brasileiros, que foram às compras, esquecendo da hora em que serviria o prato.