Por Armando Coelho Borges
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Deliciei-me na infância, se me permitem o termo nostálgico, com os livrinhos infantis ilustrados por W. Busch, da Série “Juca e Chico” (“Max und Moritz”). Wilhelm Busch era ilustrador, pintor e poeta alemão, nasceu no então Reino de Hanover, a 15 de abril de 1832, e morreu em Mechtausen, em 9 de janeiro de 1908. “Juca e Chico” apareceram em 1865, e podem bem se considerar precursores das histórias em quadrinhos e desenhos animados. Tudo isso em forma de livro, com versos e ilustrações.
As violentas travessuras e sátiras maldosas da dupla Juca e Chico vieram, mais tarde, a chocar pedagogos e defensores do “politicamente correto”. Os mesmo que se apressam em condenar contos de fadas sanguinários, histórias de Monteiro Lobato e Mark Twin (apenas para nomear alguns nomes).
As travessuras de Juca e Chico não serviam de exemplo para nenhum menino bem comportado. É claro. Mas a gente queria experimentar os limites ... Certa vez, eu e um primo, que não era chegado a ler, mas destinado à ação, resolvemos, em má hora, encenar maldade ilustrada no livro, apanhando bocados de pão, que atamos com cordões, para lançar às galinhas. A idéia sinistra é que os bichos ao engolir, barbante e pão, se sufocassem. Como não pareceu acontecer nada às galinhas, nós - facínoras irresponsáveis - fomos brincar de outra coisa. No dia seguinte, o pessoal da casa da nossa avó deu o alarme. As coitadas das galinhas morreram sufocadas.
Era a ‘primeira travessura’ do livro, ‘a história da viúva Chaves’, aquela ‘que gostava de aves’. “Aflita a pobre senhora / Arranca os cabelos, chora ... / E por fim, as cordas corta, / Para que a família morta / Não fique dançando ao vento / Naquele aborrecimento!” Segue-se o refrão: a repetir-se nas 7 livros: “ – Foi esta a primeira dos dois ... / Houve outra logo depois.”
Olavo Bilac e as cuecas de Getúlio
Os desenhos de Wilhelm Busch e seus versos foram traduzidos, do alemão, por T.M. Cunha e a editora, no Brasil, confiou as adaptações em português a poetas famosos do gabarito de Olavo Bilac e Guilherme de Almeida. Além de Antonio de Pádua Mors e o próprio T.M. Cunha.
Bilac (1865-1918) era o ‘príncipe dos poetas brasileiros’, ‘eleito’ pela revista “Fon-Fon”, prestigiosa na época. Seus versos parnasianos (e afetados) formavam, no próprio nome, um verso ‘alexandrino’: “Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac”. A ‘métrica’ era perfeita (dizem). Sublinhe as sílabas, se souber ritmar poesia.
Além de poeta, foi jornalista e membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Era republicano e nacionalista defensor do serviço militar obrigatório. Escreveu o “Hino à Bandeira” e, com o pseudônimo (‘Fantasio’), os versos do Chico e Juca disponíveis online na Internet (http//pt.wikipedia.org./wiki/olavo bilac).
Eu, alfabetizado nos anos 40, cresci lendo e ouvindo Olavo Bilac. Nos cadernos escolares, a toda hora, aparecia a frase impressa e recorrente: “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste”. E continuava: “Criança! Não verás nenhum país como este!”
Naturalmente, o espírito debochado dos jovens adaptava o refrão: “Ama, com fé e orgulho, ... as cuecas do Getúlio!”. Até soava melhor, posto que chulo.
A opinião de Golo Mann
Mas voltemos a Wilhelm Busch. Seus desenhos mostravam a vida rural e também das cidades pequenas da Alemanha. O traço era nervoso e caricato, mas trazia movimento. Aqui, no Brasil, era editado pela Melhoramentos e, mais tarde, pela Editora Itatiaia Limitada. Consegui os oito livrinhos que presenteei a minhas filhas quando pequenas. Hoje – penso - só em sebos.
As histórias do alfaiate Brás se contorcendo em cólicas parece storyboard de desenho animado. Ou o tio com besouros na cama, ou o porco e o camponês; a raposa e galinha (“Peguei-te, grita o dono da galinha, já com ar de festa. Mas a raposa, toda encolhidinha, passa para o outro lado pela fresta. Eis os dois inimigos. Fica assim: um por fora e outro dentro do jardim, separados apenas pelo muro; Ah! Esperta raposa, já te curo, diz o homem com raiva e ergue o machado. Mas a raposa encolhe-se-lhe à frente, e o golpe de ira passa-lhe de lado. Na fúria, o dono da galinha cai fora, sem equilíbrio. E não tem fim o jogo da raposa que vai parar de novo dentro do jardim! Entra o homem. O bicho sai. “Mulher! Vem me ajudar, aqui não posso mais! ...” E lá vem ela. Vem correndo e quer ajudar. Seu garfo enorme traz. “Ah! Raposa matreira, se eu te pego!” grita a mulher arfando, já cansada. E desfecha golpe, a esmo, cego, sobre o bicho, mas falha-lhe a garfada. E a raposa bem sabe que é preciso ser bem ligeira ou um dos dois a pilha, e o golpe do granjeiro ei-lo – que riso - ... – simplesmente corta-se a ... armadilha! ... Que foi!? pergunta o homem. “Que acontece? – indaga-lhe a mulher pegando a linha. E a raposa? Onde está? Desapareceu e com ela – que horror! – vai-se a galinha. Vendo a mulher que o homem já falhara e vendo o homem que falhara a esposa, dizem um ao outro, bem na cara: “Bobo!” – “Tonta! …. Escapou-lhes a raposa.”
Dá para visualizar, não?
Golo Mann, filho de Thomas Mann, já dizia: “Quem desejar informar-se acerca do espírito da burguesia alemã da época de Bismarck, poderá fazê-lo nos álbuns de Busch melhor do que em muitas obras de sociologia”.
Imaginem Juca e Chico sociólogos. E se esta não for a melhor dos dois, veio outra logo depois.
A linguagem de Brecht
John Willett autor de excelente tratado sobre o teatrólogo Bertold Brecht, ao estudar a linguagem do escritor, observa que há origens e pontos de contacto, saídos tanto das páginas da revista “Simplizimus’ como das rimas de “Max und Moritz”. Quem quiser travar contato com a violência, crítica e farsa das obras infantis de Busch, descobrirá, nas peças de Brecht, diálogos travessos e situações terríveis que parecem sai direto dos desenhos e versos do irreverente artista alemão do Século 19.
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SOBRE O AUTOR
Armando Coelho Borges, gaúcho, está em São Paulo desde 1978. Em Porto Alegre fez coluna diária no caderno de Variedades do jornal Zero Hora, mesclando comidas e bebidas com música, cinema, esporte e atualidades. Em São Paulo, colaborou na revista CartaCapital, fazendo a seção "Secos e Molhados". E assinou reportagens sobre vinho na França, destacando o grande enólogo Emile Peynaud. Abordou o panorama do azeite em Portugal, participou da entrevista com a grande figura do vinho do século 20 na Itália, o jornalista Luigi Veronelli, um dos responsáveis pelo soerguimento da vitivinicultura italiana. Na revista Gula, discorreu sobre comidas na obra de Erico Verissimo e o vinho na Bíblia. Na editora Abril colaborou no Guia Quatro Rodas feito para a Telefônica, comentando 15 adegas de restaurantes no Brasil e 15 na cena internacional. Para Veja São Paulo fez crítica semanal assinada de restaurantes e, na edição anual da revista, verbetes isolados e hipertextos da culinária servida na cidade. Entre eles, o que citava a ira do cineasta espanhol Luis Buñuel, jogando a paella sobre o tapete aos convidados brasileiros, que foram às compras, esquecendo da hora em que serviria o prato.
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