Por Armando Coelho Borges
acb@livingalone.com.br
Nosso papo de botequim atende a paixão nacional: o futebol. Vamos tomar um chope, abrir uma Heineken, cortar essas bebidas com steinhaeger bem gelado, e pedir os petiscos. O Blog não é machista. As mulheres, hoje, entendem tanto ou mais que os homens sobre o jogo em si e os meandros do futebol. Um exemplo do belo sexo, por exemplo, a apresentadora da tevê Renata Fan, da Rede Bandeirantes. No botequim, homens e mulheres comentam as chances de cada time na largada do que é o mais importante (há duvidas) e extenso (isso sim) campeonato de futebol do mundo.
Técnicos gaúchos a dar com pau
E essa gauchada? Nunca se viu tanto técnico gaúcho reunido, a dirigir times nesse campeonato. A começar pelo hors-concours técnico da Seleção brasileira, Mano Menezes, ex-Corinthians e ex-Grêmio.
O elenco integrado por Felipão (Palmeiras), Renato (Grêmio), Tite (Corinthians), Carpegiani (São Paulo), Falcão, esse natural de Santa Catarina, criado desde criancinha como gaúcho (Internacional) - parece dar as cartas no momento. Se acrescentarmos à lista, nomes do passado, como Dunga (de curta passagem) e Enio Andrade (de saudosa memória) que foi campeão nacional, invicto, pelo Internacional em 1979 – ganha alento a tese de que o futebol do Rio Grande do Sul é admirado pela influência do Prata (argentina e uruguaia) que reforça a idéia de que os times do sul são mais competitivos por que se espelham em não perder. E não por jogar bonito.
Chegando ao Brasileirão, não vejo como Internacional e Grêmio, com os plantéis que têm, poderão fazer uma boa campanha nesse campeonato brasileiro. Na Libertadores, fracassaram. É claro que é cedo para afirmativas categóricas, o campeonato é longo, mas, pelo andar da carruagem, não parecem com pinta de favoritos. Nem de longe. Também não parece esse ser o caso de Felipão, Carpegiani e Tite, com seus times paulistas, até agora melhores que os gaúchos. Mas precisam reforçar suas equipes. Os cariocas de ponta, como Vasco e Flamengo (Fluminense e Botafogo não aparecem), nesse início de Brasileirão, vão disputar com os mineiros as melhores colocações. E o papel de coringa e favorito sentimental de quase todos pelo Brasil, fica a ser do Santos. Que tem dois jogadores fora de série (Neymar e Ganso) e podem desequilibrar e impor medo aos adversários.
Copa América e o futuro de Mano Menezes na Seleção
Se Mano Menezes conseguir o feito de ganhar o campeonato Sulamericano, que vai se disputar na Argentina, seu caminho está pavimentado para prosseguir dirigindo a seleção até o Mundial de 2014. Acho que ninguém duvida disso.
Se perder, as forças de mudança de métodos vão questionar sua presença e certamente, nesse caso, os nomes paulistas e cariocas de Muricy Ramalho e Wanderley Luxemburgo vão liderar as escolhas do próximo treinador. A era da gauchada chegaria ao fim.
Este é o cenário que se desenha no certame continental. Mano não precisa atravessar o Rubicão, como fez Cesar, e dizer que a sorte está lançada. Tem de transpor o Rio da Prata e sua foz para garantir o futuro. É por aí.
Barcelona
Nenhuma conversa de botequim que se preze pode evitar a menção do maior time em ação dos últimos tempos: o Barcelona. É um time de sonho, parece feito para virar filme de ficção. A surra que deu no Manchester, no estádio de Wembley, em Londres, dividido entre catalões e ingleses, no último sábado, vai ficar como um dos momentos sublimes do bom futebol.
Conversa de arquibancada
Na segunda metade dos Anos 50, houve um programa de televisão que ia ao ar aos domingos à noite, tipo 22 horas. Era um programa de comentários e entrevistas, na TV Piratini de Porto Alegre – Canal 5 - da rede dos Diários Associados.
Naquela época das transmissões em preto e branco, a ‘cor’ do Canal 5 era ‘cinza esmaecido’. Não havia contraste que salvasse. Para dar um toque de realismo, montaram nos estúdios, uma autêntica arquibancada de madeira, com vários degraus vazados onde se sentavam os participantes da famosa “Conversa de Arquibancada” – esse o nome do programa. A posição era incômoda, às vezes no entreabrir das pernas mostrava às câmaras pedaços de anatomia meio-amassados, meias-caídas, barrigas precisando de exercício, botões desabotoados, etc.
O apresentador era Guilherme Sibemberg, conhecido narrador das partidas da Piratini que fazia dupla com o comentarista Renato Cardoso. Não havia vídeotape e todos os intervalos eram feitos ao vivo, inclusive para os anúncios, com modelos de shortinho em gestos estereotipados dizendo, com pouca naturalidade: “Hudson – o Cigarro dos Esportistas – preferência da arquibancada”.
Os convidados sentavam-se mais espaçados como podiam, os entrevistados ficavam no meio do ‘público’, atrás e ao lado dos apresentadores e os comentaristas trocavam observações, críticas e farpas – não sendo raro que se elevasse a voz ou que alguém gritasse e se levantasse de dedo em riste para ameaçar outro.
Numa dessas trocas de farpas, o apresentador do programa, Guilherme Sibemberg, gritou aos quatro ventos:
- Então, eu lavo minhas mãos, como Herodes!
Ao seu lado, o companheiro de equipe, Renato Cardoso, sussurrou baixinho:
- Não foi Herodes, foi Pilatos.
- Não faz mal. Herodes também lavava!
>>>>>>>>>>>>>>
SOBRE O AUTOR
Armando Coelho Borges, gaúcho, está em São Paulo desde 1978. Em Porto Alegre fez coluna diária no caderno de Variedades do jornal Zero Hora, mesclando comidas e bebidas com música, cinema, esporte e atualidades. Em São Paulo, colaborou na revista CartaCapital, fazendo a seção "Secos e Molhados". E assinou reportagens sobre vinho na França, destacando o grande enólogo Emile Peynaud. Abordou o panorama do azeite em Portugal, participou da entrevista com a grande figura do vinho do século 20 na Itália, o jornalista Luigi Veronelli, um dos responsáveis pelo soerguimento da vitivinicultura italiana. Na revista Gula, discorreu sobre comidas na obra de Erico Verissimo e o vinho na Bíblia. Na editora Abril colaborou no Guia Quatro Rodas feito para a Telefônica, comentando 15 adegas de restaurantes no Brasil e 15 na cena internacional. Para Veja São Paulo fez crítica semanal assinada de restaurantes e, na edição anual da revista, verbetes isolados e hipertextos da culinária servida na cidade. Entre eles, o que citava a ira do cineasta espanhol Luis Buñuel, jogando a paella sobre o tapete aos convidados brasileiros, que foram às compras, esquecendo da hora em que serviria o prato.
>>>>>>>>>>>>>>