por Daniel Japiassu, editor do Portal Alone
Pouca gente sabe, mas o Brasil tem um Dia Nacional da Música Clássica. Comemora-se a data em 5 de março, aniversário de Heitor Villa-Lobos (cujo cinquentenário de morte se dá também neste 2009).
Mas, afinal, por que ouvir música erudita. A explicação poderia ser, simplesmente, "porque tudo que você ouve hoje é resultado do que se produziu nos últimos cinco séculos". Mas talvez seja preciso dizer um pouco mais do que isso, ser um pouco mais apelativo.
O grande crítico literário e musical Otto Maria Carpeaux (nascido na Áustria, em 1900, mas radicado no Brasil, onde morreu em 1978) costumava dizer que música erudita é questão de cultura - ou melhor, de uma cultura mais ampla. No caso, creio que ele se referia ao fato de que conhecer os acordes (e a vida) de gênios como Bach, Beethoven, Mozart, Tchaikovsky, Chopin etc. constitui um saber, no mínimo, original.
Outro ponto a ser considerado é que fica mais fácil entender a música atual tendo uma base sólida do que foi a produção orquestral e instrumental dos séculos passados. Diferentemente de nossa literatura, de nossas artes plásticas e de nossa filosofia, que remontam à Antiguidade greco-romana clássica, a música ocidental tem manjedoura mais recente, portanto, mais fácil de ser localizada e estudada.
Isto dito, mãos à obra - com a ajuda da Internet (por que não?), que tem tudo que um candidato ao foyer do Municipal precisa saber para conhecer um pouco mais sobre o assunto. Antes, porém, dê uma olhada na nossa lista básica de compositores, gente que precisa ser ouvida antes de qualquer outra coisa.
Tommaso Albinoni (1671-1751)
O nome pode lhe parecer desconhecido, mas a música deste italiano de Veneza certamente não é. Seu Adagio para cordas e órgão é dos temas mais onipresentes no planeta e já se fez ouvir até em novela da Rede Globo.
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Alemão de Eisenach, grande parte do que compôs (e foram mais de mil obras) é magnífico e tornou-se célebre. Duas boas pedidas para começar a apreciá-lo são a Toccata e Fuga em ré menor (BWV 565) e Jesus Alegria dos Homens, da Cantata 147. Os Concertos de Brandemburgo são o segundo passo. A partir daí fica tudo mais fácil.
Ludwig Van Beethoven (1770-1823)
Outro mestre absoluto da música erudita (e também alemão, só que de Bonn), compôs algumas das peças mais célebres de todos os tempos. Experimente a Sinfonia nº 7 em lá maior Op. 92 e também as sonatas para piano Ao Luar (Opus 27, nº 2), Appassionata (Opus 57, nº 23) e Patética (Opus 13, nº 8).
Georges Bizet (1838-1875)
Francês nascido em Paris, ficou mundialmente famoso pela ópera Carmen, mas deve ser saboreado, de início, por uma obra menos conhecida do público, a Sinfonia em dó maior, escrita aos 17 anos de idade e na qual já se percebem certos traços líricos.
Johannes Brahms (1833-1897)
Tudo que escreveu é um tanto complexo, mas seu nome faz parte do panteão dos maiores gênios da música erudita. Para começar bem a ouvir este mestre alemão de Hamburgo, tente o seu Concerto Duplo em lá menor, para violino e violoncelo, Opus 102. A peça é a favorita do crítico musical (e imortal da ABL) Luiz Paulo Horta, o que não é pouco...
Fryderyk Chopin (1810-1849)
Outro dos maiores nomes da música de todos os tempos, o polonês nascido em Lelazowa Wola (perto de Varsóvia) tem uma produção para piano simplesmente fantástica. Atenção especial às polonaises (principalmente a Militar, Opus 40 nº 1), aos estudos (vá de Estudo nº 3) e noturnos (tente o Opus 9 nº 2).
Claude Debussy (1862-1918)
Sua Clair de Lune (da Suíte Bergamasque) já esteve em filmes, novelas e até alguns comerciais. É um bom primeiro contato com este francês de St. Germain-en-Laye. Depois, a suíte La Mer (O Mar) pode ser interessante.
George Gershwin (1898-1937)
Nascido no Brooklin, em Nova York, é um dos pais do jazz moderno. Suas mais célebres criações são a Rhapsody in Blue (um dos capítulos do filme Fantasia 2000, da Disney) e An American in Paris, peça que deu nome a um dos maiores sucessos do diretor Vincente Minnelli (o filme Sinfonia de Paris, de 1951).
George F. Haendel (1685-1759)
Alemão de Halle, fez carreira em Londres, e suas obras fazem parte da trilha sonora de inúmeros programas de TV. Ou será que você nunca ouviu a Suíte Música Aquática ou a Música para Reais Fogos de Artifício? Experimente. Você vai descobrir que o barroco é um barato!
Gustav Holst (1874-1934)
Ah, este inglês de Cheltenham sabia das coisas. Ouça sua suíte Os Planetas. Qualquer semelhança com as trilhas sonoras dos mais famosos filmes de ficção científica de todos os tempos não será mera coincidência... John Williams (Star Wars, ET, Superman) bebeu na fonte de Holst, assim como James Horner (Alien, o Oitavo Passageiro), Alan Silvestri (De Volta para o Futuro, Uma Cilada para Roger Rabbit) e Gyorgy Ligeti (2001, Uma Odisséia no Espaço).
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Ele já foi chamado de "o McDonald´s da música erudita", por causa do fenômeno de massificação de sua obra, mas é tudo intriga da oposição. Este austríaco de Salzburg é gênio. Uma boa primeira pedida é Eine Kleine Nacht Musik (aquela que toca em comercial de sabonete); depois, vá direto para as sinfonias nº 40 em sol menor (K550) e nº 41 em dó maior (K551).
Sergei Rachmaninov (1873-1943)
Tudo que o russo de Novgorod produziu deixou marcas profundas na história da música. Mas nem tudo é de fácil deglutição. Uma de suas obras-primas é o Concerto para piano em ré menor nº 2 (Opus 18), cujo terceiro movimento já foi usado até em reclame de vodca... Uma blasfêmia! Depois, vá para o Concerto para piano nº 3.
Maurice Ravel (1875-1937)
Grande influência da música orquestral do século 20, este francês, filho de pai suíço e mãe basca, ficou popular graças, sobretudo, a seu célebre Bolero - que já foi tema até de baile de formatura. É um tanto repetitivo, mas absolutamente maravilhoso - as melhores versões (e esta é uma opinião pessoal, como tudo em música, principalmente, a erudita) são as de Claudio Abbado, Leopold Stokowski e Herbert Von Karajan. Vale ter em casa!
Pyotr Ilych Tchaikovsky (1840-1893)
Impossível já não ter ouvido alguma coisa do russo mais famoso do mundo. Na dúvida, vá de Concerto para piano em si menor nº 1 (Opus 23). E dê uma chance também ao Concerto para violino em ré maior (Opus 35). Seus balés também são excelentes e muito animados - experimente o Quebra-Nozes (do filme Fantasia, de 1940), A Bela Adormecida e O Lago dos Cisnes.
Heitor Villa-Lobos (1887-1950)
Não apenas por ser brasileiro, o carioca merece lugar na nossa lista por tudo que representa mundialmente. As Bachianas Brasileiras ainda são a melhor maneira de se conhecer o gênio nacional. Dentre elas, duas merecem atenção: a nº 5 (para oito violoncelos e que ficou conhecida na voz da soprano Bidu Sayão) e a nº 7, ambas maravilhosamente belas.
Antonio Vivaldi (1678-1741)
Veneziano como Albinoni, ele criou temas que atravessaram os séculos. Uma pequena obra-prima é o conjunto de concertos As Quatro Estações, que descreve perfeitamente as diferentes épocas do ano. Atenção especial ao Inverno... Depois, vá para os Concertos para oboé, fabulosos, que remetem à reflexão.