Quem viaja costuma visitar exposições mundo afora, mas quem fica por aqui quase não vai a museus. O que é uma pena, pois São Paulo tem um acervo riquíssimo de obras de arte espalhadas pela cidade
por Rosane Queiróz, in loco
Siga as placas marrons. São as que indicam os principais museus da cidade. Se você nunca circulou por São Paulo com olhos de turista, talvez não as tenha notado. Em vários pontos da cidade há plaquetas de trânsito com ilustrações de monumentos que os paulistanos muitas vezes demoram a desvendar. Museu, afinal, é programa para viagem.
Há quem tenha visitado o Louvre ou o MoMA, antes mesmo de conferir os acervos do Masp ou da Pinacoteca do Estado. Ou sem jamais ter posto os pés no Museu do Ipiranga ou no Pateo do Collegio. Um pecado. A casa dos jesuítas erguida em 1554, marco inicial da capital, abriga o Museu Anchieta, com sua preciosa coleção de arte sacra e uma rica programação de concertos e oficinas culturais.
Com mais de 59 museus, o baú de memórias de São Paulo é grande, generoso e não deixa nada a desejar se comparado às outras metrópoles do exterior. A Pinacoteca, um dos espaços campeões de bilheteria, recebeu 500 mil visitantes apenas em 2008, e segue surpreendendo. "Senti um misto de surpresa e orgulho ao entrar aqui", diz a médica pernambucana Vanessa Ferrari, de 30 anos, de férias em São Paulo. "Conheço alguns museus da Europa, e a Pinacoteca está no mesmo nível", diz a moça que começou seu roteiro cultural no Museu do Ipiranga, visitado na véspera. "No Ipiranga, o jardim e os quadros históricos que a gente vê desde pequena nos livros valem a pena", resume. A tela Independência ou Morte, no salão nobre, e o jardim à la Versalhes valem o passeio. Por fim, ela admite que também nunca visitou o Museu do Estado do Recife. "Como está perto, a gente acaba não indo", diz Vanessa.
RODIN, TARSILA E BETHÂNIA
De volta à Pinacoteca, mas agora no salão seguinte, telas gigantes do pintor Almeida Júnior, mestre em retratar o interior paulista do século 19, mostram cenas e pessoas em tamanho quase (su)real. O Caipira Picando Fumo, de 1893, é uma das obras-primas do acervo. Mais à frente, vê-se a São Paulo, de 1924, nas tintas de Tarsila do Amaral, e, no átrio, algumas "musas" esculpidas por um certo francês chamado Rodin.
Depois de comprar uns livros de arte na lojinha e tomar um expresso à sombra das árvores do Parque da Luz, onde estão diversas esculturas de artistas renomados, é hora de atravessar a rua e entrar no apaixonante Museu da Língua Portuguesa. Interativo, futurista, o único museu do mundo dedicado a um idioma contabiliza 1,6 milhão de visitantes em três anos. O passeio pela história da nossa língua-mãe é nas vozes (em áudio e vídeo) de Arnaldo Antunes, Chico Buarque e Maria Bethânia, que dizem coisas como: "Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma" (Fernando Pessoa). Na Praça da Língua, a poesia é projetada em grandes dimensões, e as letras surgem feito estrelas num planetário. No fim, os visitantes conferem os poemas gravados no chão, como numa calçada da fama.
No roteiro também não deve faltar o Museu do Futebol, golaço em matéria de instituição cultural. Inaugurado em outubro de 2008, o lugar é uma festa para os amantes da bola. Tem 1.500 fotos, seis horas de filmes e objetos usados pelos jogadores. O grande barato é chutar uma bola de futebol e ver no radar a velocidade do lance. Ainda na linha "experiência", o mais festejado é o recém-inaugurado Catavento, dedicado às ciências. Tem uma sala que simula o ambiente da Lua, um miniplanetário, réplicas do corpo humano, cinema 3D para ´sentir´ as paisagens do Rio de Janeiro e uma coleção colorida de 700 borboletas da Amazônia.
TUDO COM M: MASP, MIS, MUBE, MAM E MAC
Aos domingos, a feira de antiguidades do Masp (Museu de Arte de São Paulo) convida a um passeio sob o maior vão livre da América Latina. O prédio assinado por Lina Bo Bardi guarda mais de 8 mil obras acumuladas em 61 anos de história. Se já viu, vale a pena ver de novo porque no último ano, o MASP ganhou 21 novas obras, entre elas a tela O Cavaleiro (1940), de Salvador Dalí, exposto logo na entrada. Na ala dos retratos você vê Rosa e Azul - As meninas Cahen d´Anvers (1881), de Renoir, uma das glórias do impressionismo. Vira a cabeça e dá com as coloridas Cinco Moças de Guaratinguetá, de Di Cavalvanti, entre chapéus e sombrinhas, numa cena dos anos 30. Sem falar da turma toda ali reunida em telas, esculturas, desenhos e gravuras: Rembrandt, Picasso, Van Gogh, Modigliani, Goya, Cézanne, Portinari...
Para continuar na série dos MM, siga para a avenida Europa. Depois de passar por uma grande reforma, o MIS (Museu da Imagem e do Som), continua cool e com exposições e vídeos bem selecionados. O MIS mantém uma dobradinha interessante com o MuBE (Museu Brasileiro da Escultura). Numa tarde dá para conferir as esculturas do vizinho, que não tem acervo fixo. "É um museu de grandes novidades", como diria Cazuza. Há ainda o acervo do MAC (Museu de Arte Contemporânea), na Cidade Universitária, tido como o maior da América Latina em produção ocidental do século 20. No modernoso MAM (Museu de Arte Moderna), no Ibirapuera, fica até 28 de junho a exposição fotográfica Olhar e Fingir, com obras da coleção do casal francês Michel e Michelle Auer.
Não deixe de dar espiadas na programação do Instituto Thomie Ohtake. Até 28 de junho, o prédio pink e roxo projetado por Ruy Ohtake apresenta uma mostra de gravuras da própria Tomie, e a exposição pop Rico Lins: uma gráfica de fronteira, mix de cartazes de cinema, teatro, capas de revistas e livros e ilustrações do designer carioca.
Em matéria de jardim, o Museu da Casa Brasileira, especializado em design de móveis e arquitetura, guarda um dos mais bonitos. Cercado por prédios de vidro e concreto, o clássico solar erigido na década de 1940, residência do ex-prefeito Fábio Prado e de sua mulher Renata Crespi, abriga em seu terreno de 6.600 metros quadrados um gramado e um bosque magníficos em plena avenida Faria Lima. No interior do solar, além de móveis e utensílios brasileiros dos séculos 17 ao 21, você pode apreciar telas célebres como Floresta e o Veado, de Cândido Portinari. Ou 12 litografias de Iluchar Desmons, do século 19.
Sentado numa namoradeira, entre as árvores centenárias, ou aboletado numa das mesas do restaurante Quinta do Museu - onde se come moqueca, quibebe e outras delícias brasileiras - qualquer um se sente fora de São Paulo. Ou numa outra São Paulo, mas que não deixa de ser a sua.
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Vale a pena ver
Mostras e eventos nos
principais museus paulistanos
Pinacoteca: Fernand Léger - Amizades e relações brasileiras, e a exposição fotográfica À procura de um olhar: fotógrafos franceses e brasileiros revelam o Brasil
Masp: Arte na França 1860-1960: O Realismo, 100 obras de museus franceses, como o D´Orsay. VIK, do artista plástico e fotógrafo paulistano Vik Muniz. Não perca o Frankenstein de caviar e a Medusa de macarrão, eternizados em fotos
Museu da Casa Brasileira: Santos-Dumont Designer tem réplica do 14-Bis em tamanho natural
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Guia dos curiosos
Excentricidades, bizarrices etc.
O Museu do Crime é para quem tem estômago. Fica na Academia da Polícia Civil e guarda memórias macabras de crimes antológicos. Um dos favoritos do público é o célebre "crime da mala" - em 1928, José Pistone asfixiou a mulher, Maria Fea Pistone, e a esquartejou. Uma boneca de cera mostra a vítima "pronta" para ser colocada no tétrico baú. Já o Museu do Relógio abre, pontualmente, todo segundo sábado de cada mês. O acervo exibe ampulhetas, antigos relógios de ponto e até um relógio atômico, a mais nova aquisição do museu. E tem também o Museu da Mágica, com pôsteres, aparelhos de palco e fitas de vídeo com a história da mágica desde 1898. O fundador do museu, Mister Basart, diverte os visitantes com truques e ilusionismo.